medos são fantasmas que não te deixam dormir

eles passam o dia com você

mas sob as horas de luz, há muito o que fazer

eles assombram, à espreita

e corremos para não ver

20 minutos na esteira

ou 2, para alcançar o Barro/Macaxeira

trabalhamos algumas horas a mais

e quando a noite chega

a escuridão os torna visíveis

a ausência de barulho os torna estridentes

e não há como fugir

porque os medos riem das tuas fraquezas mundanas

e dançam ao redor da tua cama

(a madrugada não é mad por acaso)

a coleção de tristezas

Eu não lembro exatamente quando foi, mas desde muito cedo coleciono tristezas. Elas têm cheio de guardado e várias categorias. São grandes, pequenas, do passado, do futuro, do presente, de amigo, de família, de amor. Foi tudo muito natural. Comecei a guardá-las uma por uma numa cristaleira enorme e frágil e, quando dei por mim, estava repetindo o processo várias vezes: as sentia, pegava, guardava. Elas pulsavam e eram revisitadas um tempo depois. Eu tirava o pó, lustrava, sentia de novo. Tentava deixá-las lá, existindo. Coexistindo. Hoje tenho uma muito bem guardada coleção de tristezas.

Talvez tudo isso tenha acontecido pois tristezas só existem porque coexistem. Quando uma vem, nunca vem só. Uma vem juntinho da outra, feito bicho de ruma, trazendo um par consigo. Tristeza tem ímã, e quando salta da gente magnetiza rápido n’outra. Talvez coexistindo com outra ela ganhe mais força. Quando percebi que tristeza é coleção, que vem em bando, tremi. As convicções vão derretendo diante da gente quando nos conhecemos melhor. Feito um álbum de figurinhas, cada tristeza só faz sentido com a outra ao lado. Se completam. Quando sinto uma, a outra já está na fila para ser sentida junto. E eu sinto. E eu pego. E eu guardo. E desde então, coleciono.

notas sobre a nostalgia pontualmente às 01h22 da manhã (ou Sejamos Gentis Com Nossas Memórias)

Eu sempre quis entender por que o ser humano é nostálgico. Ainda não sei. Não sei o que faz a gente procurar foto antiga de momentos que naquela época não pareciam tão incríveis como parecem hoje. O que faz a gente ouvir aquela música que hoje nem achamos tão boa, mas que mexe com a gente igual, mexe lá naquela memória que você faz questão de guardar por razão nenhuma.

Tipo o dia em que você chegou atrasada para a primeira aula na escola e ficou aguardando a que viria em seguida, enquanto ouvia o primeiro álbum da Marina and The Diamonds num iPod com os fones no volume máximo, de farda amassada e casaco desproporcional ao seu tamanho, cabelo propositalmente despenteado, deitada no banco frio de concreto que ficava em frente à sala de aula. Era horrível existir naquele momento. Eram 7:30 da manhã e ninguém é feliz às 7:30 da manhã. Era ano de vestibular e raramente se é feliz nessa época também, com todas as pressões, a ansiedade para sair da escola e conhecer o Cenro de Artes e Comunicação da UFPE, os problemas de relacionamento interpessoal, o não entendimento de quem você é (não que hoje eu saiba, mas naquela época isso perturbava muito mais), as espinhas e a depressão.

Algumas memórias são muito cinzas, mas a nostalgia faz com que vejamos certa beleza nelas – uma beleza frívola, melancólica, meio Lana Del Rey (como eu ouvia essa mulher nessa época, meu deus!), mas ainda bela. Eu só não sei explicar porque eu me pego pensando nisso, se racionalmente está claro, claríssimo, que foi uma época difícil. A nostalgia tem poderes que eu desconheço. Mas toda vez que eu escutar o disco The Family Jewels até o final ou ouvir em algum shopping center o one-hit wonder Gotye e sua “Somebody That I Used To Know”, eu vou lembrar de 2012 com carinho e com uma beleza que talvez eu não fosse capaz de enxergar com 16 ou 17 anos.

Talvez crescer seja ganhar também umas lentes especiais para justamente enxergar isso, as pequenas coisas que te levaram a ser quem você é. E por mais duras que sejam, essas memórias fazem parte de um processo de aprendizado que só você conhece. Creio que a beleza está aí. Em se reconhecer. Em se apropriar do processo de ser, de querer ser mais. E para ser mais, é preciso olhar pra trás mesmo. Talvez seja aí que a nostalgia me ganhe: olhar para o passado com carinho é olhar para a menina frágil, medrosa e cheia de sonhos que eu deixei no passado. Olhar para ela com é entender que eu a carrego dentro de mim, e que eu preciso ser gentil com ela porque ela faz parte de quem eu me tornei também. Afinal, se eu não tivesse passado pelo que ela passou, eu não ia ter a força, a coragem (médio, ainda tenho medo de altas paradas, mas ok) e os pés no chão que tenho hoje.

No fim das contas, escrevendo esse texto ao som de Speechless, minha balada preferida de Lady Gaga e grande hino das minhas desilusões amorosas circa 2010, ficou um pouco mais clara a minha fascinação com a nostalgia: é que ela me ajuda a crescer.

Na minha rua tinha uma loja de piscinas

Eu moro na minha rua desde que nasci. Mesmo prédio, mesmo apartamento, mesmo tudo. Nessa rua, bem perto, tinha uma loja de piscinas, que assim como eu está lá desde que nasci.

Há uns anos, havia uma barraquinha de cachorro quente dentro da loja de piscinas. Era o Cachorro Quente da Mulesta, mas eu nunca comi lá. Já vi até o cardápio, mas sempre deixava para depois. Até que a barraca fechou.

Esse ano, a loja de piscinas da minha rua fechou por um tempo, assim como o Cachorro Quente da Mulesta. Eu observava tudo da parada de ônibus que fica do lado, que é a parada que eu chamo de “minha” – todo mundo aqui chama a parada de ônibus mais perto da sua casa de “sua parada”, por mais que ela seja de tanta gente e ao mesmo tempo não seja de ninguém.

Nessas observações, percebi o movimento de uma obra que acontecia no terreno, a construção se desenvolvendo. Aí fiquei curiosa, por muitas semanas: o que será aqui? De uns tempos pra cá eu venho ouvido dos moradores da minha cidade que Olinda está cada vez mais moderna. A gente nem precisa sair para resolver as coisas em Recife, a capital. É o desenvolvimento, né? Até shopping vamos ter. Nessa linha de raciocínio, eu pensava: o que devem construir aqui, na antiga loja de piscinas? Será uma lanchonete, um bar, uma loja de ferragens?

Essa semana finalmente eu vi. Construíram um estacionamento. Achei verossímil. É o progresso!

algumas manhãs são melhores que outras

quando o agora atormenta

e a existência além da cama algora

olho pra frente

e vejo cortinas de macramê, macarrão na mesa, um piso de ladrilho

casa de praia pequena, com quintal

cheiro de sundown

uma criança sorrindo, tomando banho de mangueira

e um labrador grande, seu companheiro bem bobão

vejo principalmente você

ainda ali

o mesmo abraço a me acalantar

e é confortante pensar

que o futuro são várias manhãs pela frente podendo compartilhar minha cara de sono com a sua

numa cozinha grande, ou na sala de estar

qualquer lugar onde pudéssemos rir um do outro

é mais fácil seguir sabendo que, no fim, não há fim – e que sonhar não custeia, mas também não custa.

░       estava

░                        pensando

░                                           no que me trazia

░                                                                          melancolia

░                                                                         quando me peguei

░                                                                     lendo

░                                                               mentalmente

░                                                     letras melosas

░                                              de

░                    los hermanos

░   eu sou muito paia

 

eu poderia morar nesse abraço

fazer morada no entrelaço

dos teus braços, vastos

nos segundos apertados entre o tempo e o espaço

onde cabe uma alma inteira

e ainda sobra espaço pra sonhar

um sonho ou dois

ou um sonho, à dois

 

(para Rafael)